Aplicada em dose única, tenecteplase simplifica o atendimento e pode gerar economia de R$ 140 mil por ano em hospitais do Piauí e de Sergipe


A Sociedade Brasileira Caminho de Damasco (SBCD) aprovou a inclusão da tenecteplase no protocolo de tratamento do Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico, causado pela obstrução de uma artéria que leva sangue ao cérebro. O medicamento será a opção preferencial para pacientes adultos que atendam aos critérios médicos para receber o tratamento.
A principal vantagem está na forma de aplicação. Enquanto a alteplase, medicamento utilizado atualmente, exige uma dose inicial seguida de administração contínua durante uma hora, a tenecteplase é aplicada diretamente na veia, em dose única, em poucos segundos. A mudança simplifica o procedimento e pode facilitar o trabalho das equipes de saúde.
A implantação começará pelo Novo Hospital Regional de Picos (NHRP), no Piauí, e pelo Hospital Regional de Estância, em Sergipe. Segundo análise técnica e econômica da SBCD, a mudança poderá gerar uma economia conjunta de aproximadamente R$ 140 mil por ano, e que poderá ser investido em outras áreas da unidade.
Mais agilidade no atendimento
No AVC isquêmico, cada minuto é importante. Quando a circulação sanguínea é interrompida, parte do cérebro deixa de receber oxigênio, aumentando o risco de sequelas. Por isso, o diagnóstico rápido e o início do tratamento são fundamentais.
Em pacientes que atendem aos critérios médicos, a trombólise utiliza medicamentos para dissolver o coágulo e tentar restabelecer a circulação. Estudos científicos apontam que a tenecteplase apresenta eficácia e segurança comparáveis às da alteplase em pacientes selecionados, com a vantagem de uma administração mais simples.
A aplicação em dose única também pode facilitar a transferência de pacientes entre serviços de saúde. A indicação do medicamento continuará dependendo de avaliação médica, exames de imagem e acompanhamento rigoroso.
Para o Dr. Rafael Makoto Panetta, coordenador médico de UTI Hospitalar da SBCD, a mudança exige preparo das equipes. “A adoção dessa tecnologia deve estar associada a protocolos institucionais bem definidos, equipes capacitadas, diagnóstico rápido e monitoramento adequado. A seleção criteriosa dos pacientes e o início precoce do tratamento continuam sendo fundamentais para maximizar as possibilidades de recuperação”, destaca.
Experiência dos hospitais e economia de recursos
A escolha das unidades de Picos e Estância considera a experiência no atendimento ao AVC e a organização dos serviços hospitalares. Em Picos, a implantação acompanha a reorganização da rede realizada em setembro de 2026, quando o Novo Hospital Regional passou a concentrar a assistência a adultos, incluindo os casos de AVC anteriormente atendidos no Hospital Regional Justino Luz.
Antes da mudança, o Justino Luz havia registrado crescimento superior a 160% na média mensal de trombólises, passando de 1,78 procedimento em 2025 para 4,75 em 2026. O avanço foi associado à capacitação das equipes, à agilidade nos exames e à melhoria dos protocolos de atendimento.
Além das vantagens assistenciais, a tenecteplase poderá reduzir os custos por procedimento em aproximadamente 26%. Em Picos, a projeção é de queda de R$ 7.460 para R$ 5.500, tomando como referência os custos anteriores do Justino Luz. Em Estância, a estimativa passa de R$ 7.140 para R$ 5.260.
Considerando uma previsão de 72 tratamentos por ano nas duas unidades, a economia potencial chega a cerca de R$ 140 mil. O resultado dependerá do número de procedimentos e das condições de aquisição do medicamento.
A mudança também reduz a utilização de materiais descartáveis. Enquanto a administração da alteplase demanda aproximadamente 14 itens, a tenecteplase utiliza quatro, diminuindo a geração de resíduos e liberando equipamentos para outros atendimentos.
Para o Dr. Mario Sapede, superintendente hospitalar da SBCD, a atualização demonstra que é possível associar qualidade assistencial e uso responsável dos recursos públicos. “Trabalhar com o SUS não significa trabalhar com menos. Nosso compromisso é oferecer à população atendida nas unidades da SBCD o mesmo padrão de cuidado dos melhores centros do mundo. A tenecteplase é um exemplo disso: uma tecnologia recomendada pelas principais diretrizes internacionais, que torna a trombólise mais rápida, simples e segura e, ao mesmo tempo, reduz custos, materiais e resíduos. Quando a decisão é guiada pela evidência científica, o paciente ganha, a equipe ganha e o sistema de saúde ganha. Esse é o modelo de gestão que defendemos”, afirma.
Próximas etapas
Com a aprovação técnica concluída, a SBCD dará sequência à aquisição do medicamento, à finalização do protocolo e à capacitação das equipes. A implantação será acompanhada por indicadores de segurança dos pacientes, tempo de atendimento, custos e geração de resíduos. Os resultados ajudarão a avaliar a possibilidade de ampliar o uso da tenecteplase para outros hospitais administrados pela instituição.